sexta-feira, 20 de novembro de 2009

É preciso criar uma cultura contra o bullying


Alan Meguerditchian


"Os jovens de hoje são mais agressivos do que os das gerações anteriores". A constatação do psicólogo e pedagogo italiano, Alessandro Costantini, ajuda a entender as motivações do surgimento e crescimento do bullying, assunto de seu livro "Bullying: como combatê-lo?". Diante disso, é necessário construir uma cultura em torno do tema, para tentar solucioná-lo.

Segundo o estudioso, o conceito de bullying deve ser compreendido como um comportamento ligado à agressividade física, verbal ou psicológica, exercida de maneira contínua dentro da escola. O fato envolve intimidadores, que produzem a violência, agredidos, que recebem a agressão e expectadores, que assistem. "Não são simples brigas que ocorrem entre os jovens, mas atos de intimidação sistemáticos impostos a estudantes vulneráveis e que levam a uma condição de isolamento e marginalização", explica.

Durante visita ao Brasil, Costantini concedeu entrevista exclusiva para o site Aprendiz na qual debateu a distância que ainda existe da discussão do conceito e sua aplicação na prática escolar, a dificuldade de identificar atos de bullying e como conseguir solucionar o problema.

Aprendiz - O conhecimento em torno do bullying saiu da academia e foi para a prática escolar?

Alessandro Costantini - O bullying é um fenômeno social que está surgindo agora. Nessa fase inicial é necessário conhecê-lo melhor, porque as pessoas percebem que não é uma coisa boa, mas não conseguem entendê-lo completamente. É preciso estudar para depois interferir. A situação é mais complexa hoje porque está mundialmente comprovado, por diversas pesquisas, que os jovens são mais agressivos. Esta agressividade começa desde os dois, três anos de idade.

A primeira coisa operacional a ser feita para levar o combate ao bullying até a prática escolar é uma pesquisa por meio de questionários anônimos para os estudantes responderem. Assim, é possível medir se naquela escola o fenômeno de bullying acontece, para depois intervir.

Na Itália, os estudos também chegaram atrasados em relação aos outros países europeus. Quando os nossos professores, dos vários níveis, e os pais começaram a descobrir uma agressividade nos filhos o processo já estava presente nas escolas.

Aprendiz - Por isso ainda é tão difícil para o professor identificar quando o bullying acontece na sua turma?

Costantini - O bullying nas escolas caracteriza-se por ações de prepotência, abuso, intimidação psicológica e física de maneira sistemática do intimidador contra a vítima em momentos em que o professor não está presente. Quando o ele descobre, as agressões acontecem há tempos. Assim, é necessário informar os professores para que eles atuem com um olhar de reconhecimento.

Aprendiz - Por que a geração atual é mais agressiva do que a anterior?

Costantini - Ainda estamos estudando o assunto, mas existem causas macro-estruturais que ajudam a entender. A sociedade de hoje é muito mais complexa. Existem fenômenos como a globalização, consumismo e o aumento da desigualdade econômica. Todos esses aspectos produzem o aumento da agressividade, assim como a pressão da mídia sobre os jovens, que oferece exemplos de vida restritos à aparência. Por isso, os jovens perdem muitos dos valores humanos e morais. No passado estes valores serviam de agregadores da sociedade e que agora estão perdendo seu valor.

Outros fatores são as mudanças que acontecem com a família. As famílias de hoje são muito diferentes das anteriores. Os pais trabalham e a criança fica sozinha. A família é mais complexa, o pai casou com outra mulher que traz a mãe, que não é avó do menino, mas é chamada como tal. Assim, muitas vezes, os filhos ficam sem um guia, um ponto de referência para o seu crescimento moral.

Por fim, outra causa é que a criança tem pais violentos. Isso faz com que a criança repita esta agressividade. Não havendo um adulto do seu lado que interaja, entenda ou interprete, o menino recebe as informações da televisão.

Aprendiz - A escola pode ajudar nesse processo?

Costantini - A escola não consegue substituir o papel da família e o menino fica confuso. Não tem família, não tem ponto de referência na escola, no final o menino junta-se a outros e forma um grupo, uma gangue. A gangue produz mais agressividade. Não é sempre, mas esse é um percurso possível.

Outro aspecto a ser levado em conta é a permissividade na educação, que nos últimos 20, 30 anos cresceu muito no mundo todo. Ela faz com que as crianças cresçam sem limites, com muita liberdade. Eles chegam na escola e encontram muita liberdade.

Aprendiz - Diante de todos esses fatos sociais irreversíveis, a escola pode acabar com o bullying ou apenas minimizar suas conseqüências?


Costantini - A primeira coisa é combater. A direção e os professores devem mostrar para os estudantes que o bullying não é uma coisa aceitável em circunstância alguma. O intimidador tem que entender que o que ele faz não é bom. Não basta apenas uma pessoa dizer que ele está errado. Todo mundo deve fazer isso, pais, professores, colegas de escola. Devemos criar uma cultura contra o bullying.

Depois de descobrir a agressividade é muito importante entender o porque. Qual é o problema, chegar na fonte. Para individualizar o caminho e solucionar a questão. Neste caso, os jovens, tanto agressores, quanto agredidos, precisam de uma ajuda e os pais, psicólogos e professores devem enfrentar com ele o caminho, estando, assim, envolvidos com o tema.

Aprendiz - Tais ações devem ser estabelecidas por um plano governamental ou por ações individuais das escolas?

Costantini - Na Itália o fenômeno é enfrentado de maneira pontual. Não existe um plano geral. Cada escola escolhe medidas próprias. Durante os cursos de atualização, os educadores são informados sobre os problemas do bullying individualmente, mas não é um plano orgânico. Diferentemente, na Inglaterra existe um plano governamental.

Uma estratégia unificada é muito importante porque tem um impacto muito forte nas escolas. Se o Lula, por exemplo, coloca-se no plano de governo um combate ao bullying a ser aplicado em todas as escolas, haveria um impacto bem forte de combate à agressividade e de prevenção. Isso poderia, no futuro, resultar em um impacto positivo na população, criando-se a cultura em torno do problema. Um plano governamental consegue segurar o crescimento da agressividade dos jovens de uma maneira mais ampla.

Aprendiz - Não importa se por um plano pontual ou do governo, como o agressor deve ser tratado?

Costantitni - Por um grupo de referência. Pais, professores, alunos. Todos. Insisto que devemos criar uma cultura contra o bullying. Ninguém deve apontar o dedo contra o intimidador. É uma cultura que deve ser criada. Todo mundo deve saber que atos de bullying não são permitidos. As crianças também devem saber que esta ação não é adequada.

Aprendiz - Dê um exemplo, por favor.

Costantini - É preciso ajudar a turma onde está o intimidador a participar de atividades na qual todo o grupo esteja presente. Música e teatro são exemplos. Essas atividades fazem com que o intimidador perceba que ele é parte do grupo. Além disso, ele nota que é mais prazeroso fazer parte do grupo e aceitar interagir com as crianças que eram as vítimas anteriormente. Se o intimidador toca a bateria e a vítima o baixo, é preciso que ambos trabalhem juntos. Não é possível isolar o jovem que toca o baixo. Isso é mais prazeroso e aproxima os estudantes, acabando com o bullying.

Não podemos esquecer das vítimas. Elas sofrem muito e, muitas vezes, a vítima tem um perfil introvertido e a intimidação, depois de muitos anos, afeta a personalidade da vítima de tal maneira que ela pode até se suicidar. Com as ações propostas, as antigas vítimas também passam a se sentir do grupo e isso ajuda na sua recuperação.

Aprendiz - Com a cultura contra o bullying estabelecida, as crianças que apenas assistiam, vão passar a interferir?

Costantini - Claro, porque eles vão reconhecer o fato. Sem essa cultura, ele acha que é uma brincadeira. Com a cultura, a criança a partir dos seis anos percebe que aquilo não é uma brincadeira.

Aprendiz - Como o desenvolvimento dos jovens envolvidos em bullying pode ser afetado caso nenhuma atitude seja tomada?

Costantini - Se em uma escola, o intimidador fizer o que quiser, a vítima não tem a possibilidade de agir e se os expectadores não fizerem nada, ou pior, ficarem do lado do intimidador por medo de serem os próximos alvos, a violência irá aumentar muito. A violência passará a envolver muitos desses expectadores, tornando-os possíveis vítimas. Baseado em pesquisas cientificas, existe uma grande possibilidade dos intimidadores, no futuro, tornarem-se criminosos ou serem pessoas agressivas nos relacionamentos. Enquanto isso, as vítimas vão se fechar cada vez mais, produzindo assim uma auto-estima baixa, além de serem pessoas passivas.

Aprendiz - Existem diferenças entre as atitudes de bullying entre meninos e meninas?

Costantini - O jeito de agir das meninas é diferente. Elas têm uma agressividade de caráter psicológico, de isolamento. Fazem fofocas agressivas e obrigam que todos isolem a vítima. Hoje, 15% dos jovens envolvidos em bullying são meninas. Mas este número está aumentando e produzindo uma nova forma de agressividade feminina. Com 16 e 17 anos, elas formam gangues que usam agressividade física, que ainda estamos estudando.

Aprendiz - O bullying pode ser ampliado para áreas além da escola?

Costantini - Não, porque dentro da escola as vítimas não podem fugir. Elas não têm outra opção, além de suportar as agressões diárias que sofrem. Não é como se elas estivessem na rua, onde teriam a chance de sair.

Aprendiz - O seu livro fala para os pais e professores. É possível construir uma obra para falar com as crianças?

Costantini - Sim. Eu tenho dois projetos para crianças pequenas. Um para crianças de oito anos, no qual ela é guiada por um conto de fada. A história tem como conteúdo o bullying. O outro é um gibi para crianças um pouco maiores e que também contém uma história de bullying.

Caso produtos como esses fossem editados, seria possível atingir as crianças diretamente, de uma forma mais ampla, sem precisar de um plano governamental. Além disso, este tipo de ação pode ser facilmente divulgado pela internet.

Fonte:http://aprendiz.uol.com.br/content/vocucriwov.mmp

4 comentários:

  1. eu odeio bullyng. amei o blog rosinha.

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  2. gostei muito do seu texto sobre o bullying

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  3. divu o meu blog ainda preciso cadastralo mede resposta pelo meu emeio

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  4. acredito que bulling tem de ser visto como um problema social o qual todos devem ser concientizados, dos danos causados por ele

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